Mudanças

Pois é, fui convidado pra escrever pro Dzaí, dentro do Portal Uai, que é o maior de MG.

Acabei de criar um novo blog, em breve mudará de nome e interface, mas já podem ir curtindo (ou não) os textos no link:

Clique aqui pro novo blog.

Ben Harper, 2003.

Tirando a poeira do blog.

Jogando no ar um pequeno texto sobre o belo “Diamonds on the Inside”, de Ben Harper, que foi publicado pelo www.screamyell.com.br do mestre Mac Costa, em Maio de 2003:

Se você não conhece Ben Harper, estará perdoado de todos os seus pecados musicais ao escutar “Diamonds on the Inside”, sexto trabalho deste talentoso artista. Ele seria o que o Zidane representa pro futebol: um jogador completo que ataca, faz gols, desarma, marca e defende com competência (nota atual: às vezes dava suas cabeçadas hehe). Harper flerta com o rock, reggae, funk, soul, folk e não faz feio. É um polivalente musical. E possui uma sensibilidade nos arranjos e uma voz pra dar inveja em muito marmanjo que toca black music, faz pose e bebe Fanta (nota atual: perdoem-me, eu era jovem e muitas vezes era guiado pelos sentimentos mais rasos, incentivado por um site que tinha fama de falar mal de artistas, portanto eu era motivado a criticar e quando se é jovem e confiante, os adjetivos voam pelos teclados). São 14 faixas sem nenhum percalço (nota atual: hoje, talvez considere duas ou três faixas). “With My Own Two Hands” é um “reggae sem as chatices do reggae”; a faixa-título já entra como uma das melhores de 2003; “Everything” dá orgulho ao desgastado conceito do “pop”; “Amen Omen” arrepia até viking; “Temporary Remedy” é rock no estilo Lenny Kravitz (mas ainda melhor) e “So High So Low” é o que costumo falar de “barulho do bom”. Enfim, disco essencial pra sua prateleira. E aí, está esperando o que?

Skank, 2003

Texto postado em 14 de Julho de 2003 e há anos, inacessível na web.

TRIGO NO MEIO DO JOIO

No meio de toda a mediocridade (sendo bonzinho) do rock nacional, chegamos ao Skank. Sempre gostei da banda, apesar de não gostar tanto da sonoridade dos primeiros discos. Primeiro, o “Skank”. Tosco, divertido, sem pretensão: dancehall, reggae e ska. Aparece um bom contrato e o mega “Calango”, para muitos o melhor disco deles (nota atual: marco da música pop dos anos 90, que impulsionou o posterior e impulsionaria o próximo, se banda quisesse sequir naquela direção). É bem pop, aliás pop demais! “Te Ver” é uma canção legal, mas confesso que a sonoridade da banda não fazia muito minha cabeça. (nota atual: pô, tem outras músicas legais no cd).

Com o bem-sucedido “O Samba Poconé”, o Skank virou “banda de todas as rádios”. Baita disco pop, que não me agrada muito (nota atual: hoje agrada, viva o amadurecimento haha) mas tem seus méritos. Então, a banda ensaia uma mudança: “Siderado”. Disco de “transição”, ainda com canções da fase antiga, mas já aponta novos rumos. Um bom exemplo são minhas canções favoritas, que são bem distintas, “Resposta” e “Siderado” (nota atual: “Saideira” também é clássica hehe).

Em “Maquinarama” (o melhor disco da banda, na minha modesta opinião), acertam a mão. Sonoridade mais folk (nota atual: mas não só…) sem deixar as músicas mais “agitadas” de lado (nota atual: na verdade, é a famosa guinada da banda pro rock e ponto), o Skank realizou um disco muito bacana, que não vendeu muito (nota atual: ou não vendeu tanto quanto esperado, pois já era a época do Napster). As vendas melhoraram com o posterior, o “MTV Ao Vivo”. (nota atual: e eu nem citei nada, que vacilo! As inéditas são tão boas… Ah, eu tenho um texto sobre ele, deve ser por isso).

Agora, “Cosmotron”. Todo mundo elogiando bastante. (nota atual: não é/foi verdade). Nas primeiras audições, gostei bastante, mas já faço algumas ressalvas. Sem dúvida, é um bom disco, sinal de que ainda é possível fazer pop/rock com melodia e letras bacanas, sem recorrer para as poses de mau, tatuagens “iradas”, discurso vazio e letras infantis. (nota atual: devaneios pós-adolescentes, aiai).

Escolha o melhor chavão: “a banda mergulhou de cabeça na sonoridade dos anos 60/70 mas continua olhando pro futuro” ou “a banda se renovou, antecipou o futuro do pop bebendo na fonte de Beatles e do Clube da Esquina”.

Em “Supernova”, o início lembra bastante “All in the Mind” do Oasis (nota atual: só lembro do refrão dessa do Oasis agora haha), já a referência de “Tomorrow Never Knows” dos Fab Four é óbvia. Canção boa, psicodélica.

“As Noites” talvez seja a melhor música do disco. Balada irresistível, ótima letra. Vocal contido, lembra Clube da Esquina. Instrumental bacana, principalmente piano e baixo.

“Pegadas na Lua” já te chama a atenção pelo violão no início, bem agradável. Letra legal, ótima, música pop.

“Amores Imperfeitos” entra no meu conceito de “pop perfeito”. Não é agitada, nem muito calma. Tem qualidade e perfil radiofônico. Ótimo refrão, vocal bem melódico. Guitarra sutil, backing vocal, é a receita certeira do Skank para canções boas e pop ao mesmo tempo.

“Por Um Triz” Outro destaque, rock com aroma pop, belo teclado ao fundo. ótimo final.

“Dois Rios” é uma balada excelente, tecladão sessentista.

“Vou Deixar” é ótima (…) (nota atual: mas tocou tanto que ainda estou enjoado e nem prossigo nos comentários).

“Formato Mínimo”: a melhor letra do disco, mas faltou uma melodia à altura.

“Resta Um Pouco Mais”: Folk dos bons, ótima letra e boa melodia, pra quem toca violão, recomeço começar a “tirar o disco” por esta música.

“Os Ofendidos” é mais rock, podia perfitamente estar no disco anterior, outra boa canção.

Não acho que será o melhor disco do ano, como muitos críticos já gritam pelos cantos, mas sem dúvida está bem acima de 99% dos trabalhos  das bandas “mainstream” do pop/rock nacional. (nota atual: ah, vai lá.. 85% fechado?).

Flaming Night XII, 2010

Pra quem é de BH, show da produtora que faço parte neste sábado, 6 de Março…

Neste link, um texto sobre o evento, que escrevi pro jornal “Estado de Minas”:

http://bit.ly/9xF8H2

Abaixo, o flyer, do show. Imperdível.

10 covers

A Regina, do blog 1001covers.blogspot.com me perguntou quais seriam os 10 melhores covers na minha opinião.

Isso demandaria uma longa e extensa pesquisa. De cabeça, em questão de alguns minutos, lembrei de alguns muito bons, que compartilho com vocês.

Se fui influenciado por Rolling Stones, eu lamento, ou não:

1. rolling stones – like a rolling stone (bob dylan)
2. joe cocker – with a little help to my friends (beatles)
3. hellacopters – gimme shelter (rolling stones)
4. faith no more – easy (commodores)
5. ben harper – strawberry fields forever (beatles)
6. david bowie – let’s spend the night together (rolling stones)
7. foo fighters – have a cigar (pink floyd)
8. johnny cash – hurt (nine inch nails)
9. nirvana – the man who sold the world (david bowie)
10. cardigans – iron man (black sabbath)

Meus discos de cabeceira

Texto originalmente publicado em Outubro/2003, mas indisponível até então na internet.

Após o texto, farei um “adendo” com alguns discos pós-2003.

MEUS DISCOS DE CABECEIRA

Nos últimos dias, escutei os novos álbuns do Nickelback, Rancid, Smash Mouth e Dido. Algo que achei em comum entre eles (talvez a única coisa) é que todos eles são “discos que não vão mudar sua vida”. Todos estes artistas citados já lançaram coisas melhores e esses álbuns são razoáveis (estou sendo bonzinho com o Nickelback, ok), vão apenas preencher catálogo.

Agora, alguns mudam sua vida. Claro, às vezes, não muda literalmente “a vida”, mas muda sua percepção, você começa a escutar música de uma forma diferente. São obras que, assim que ouvi, percebi um diferencial, algo que instantaneamente me fez escutar novamente ou ir atrás de artistas similares.

Antecipo que bandas “queridas da crítica” como Sonic Youth, Pixies, Teenage Fanclub, Jesus & Mary Chain, The Cure, Smiths, Echo & The Bunnymen, U2, Ramones e Velvet Underground estão ausentes. Reconheço a importância de todas, poderia citar vários cds excepcionais de todas, mas esta não é uma lista de melhores discos e sim, de discos que em algum momento da minha vida, causou algum ‘estrago’ em minha personalidade, de forma positiva ou não.

Discos em ordem alfabética e apenas um disco por artista:

  • Alanis Morissette – Jagged Little Pill (1995)

Ela jamais fará um disco melhor do que este. (Nota atual: pode até fazer, mas não será como esse). Uma série de hits instantâneos e ótimas letras.

  • Beastie Boys – Check Your Head (1992)

Para mais detalhes, leia a Revista Zero n°9, nas bancas. (nota atual: disco definitivo do hip hop, por colocar o hip hop além do hip hop).

  • Beatles – Abbey Road (1969)

Qualquer disco dos Beatles pós-Revolver, mas por este ser meu primeiro vinil deles, tenho um apreço maior.

  • Beck – Odelay (1996)

Como unir rock, eletrônico, hip hop e sons inclassificáveis, sem soar chato, cabeça ou cult. Genial.

  • Ben Harper – Diamonds on the Inside (2003)

Consolidação de Harper como um compositor de não cheia e cantor de voz única.

  • Blur – Blur (1997)

Como trair o britpop, experimentar novos sons flertando com o rock alternativo dos EUA e fazer um disco sensacional.

  • Bob Dylan – Highway 61 Revisited (1967)

Aula de folk rock. De arrepiar.

  • The Clash – London Calling (1979)

Divertido, alucinante, indispensável. (nota atual: síntese de uma época, prenúncio de outra, “marcar época” é pouco pra este álbum).

  • The Doors – The Best Of (1994)

Meu primeiro cd de rock. Minha vida nunca mais foi a mesma.

  • Faith No More – Album of the Year (1997)

Como fazer barulho e bons hits em um disco. (nota tual: só pelo título, já mereceria entrar na lista :P )

  • Green Day – Dookie (1994)

Bíblia do punk rock adolescente dos anos 90.

  • Jamiroquai – Travelling Without Moving (1996)

Além de hits, faixas sublimes, abriu minha cabeça para novas sonoridades muito além do rock.

  • Led Zeppelin IV (1970)

O primeiro disco do Led a gente nunca esquece hehe.

  • Lenny Kravitz – Mama Said (1991)

O Lenny atual é mera caricatura de um baita artista que já foi.

  • Massive Attack – Mezzanine (1998)

A porta de entrada pro maravilhoso mundo do trip-hop. Espetacular.

  • Neil Young & Crazy Horse – Weld (1991)

Duplo ao vivo, que provocou minha caça aos discos antigos deste gênio.

  • Nirvana – Nevermind (1991)

Hype se justifica, disco absolutamente necessário.

  • Oasis – Be Here Now (1997)

Aula de “stoned britrock”, o inicio do declínio do britpop em um disco que brilha até nos defeitos.

  • Pavement – Terror Twilight (1999)

Derradeiro cd da banda. Despedida mais “clean”, mas encantadora.

  • Pearl Jam – Yield (1998)

Quanto mais falam mal, mais eu gosto dele. Trilha de bons e maus momentos, sua significação vai além das faixas.

  • Pink Floyd – Dark Side of the Moon (1973)

Uma referência de como fazer (e não fazer) rock progressivo.

  • Portishead – Live NYC (1998)

Disco perfeito pra ouvir: a) triste b) de madrugada c)bêbado e/ou drogado d)fazendo sexo e) todas as anteriores.

  • Queens of the Stone Age – Songs for the Deaf (2002)

Tudo o que você faria no cd do Portishead, você também faz neste cd, mas o efeito é inverso. Fabuloso,  escute alto, sempre. E sorria.

  • Radiohead – OK Computer (1997)

Talvez o melhor disco dos últimos 30 anos. (nota atual: ainda bem que coloquei o “talvez”. Este disco simplesmente mudou minha vida mais do que nenhum outro).

  • Red Hot Chili Peppers – One Hot Minute (1995)

Pesado, psicodélico, polêmico e renegado. Quer mais atrativos pra este cd?

  • R.E.M. – New Adventures in Hi-Fi (1996)

Perfeito. (nota atual: o resumo dos anos 90).

  • Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request (1967)

A obra-prima da psicodelia dos Stones. (nota atual: ah, mas hoje eu colocaria o “Let It Bleed” (1969) com certeza).

  • Ryan Adams – Gold (2001)

Quer ouvir rock/country/folk? Esse é o disco.

  • Smashing Pumpkins – Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)

O melhor cd duplo que já ouvi.

  • Wilco – A.M. (1995)

Face mais agitada e bacana do Wilco, primeiro disco da banda com boas guitarras e belas músicas. (nota atual: hoje “Sky Blue Sky” (2007) coloca esse belo cd no chinelo).

Nacionais:

  • Diesel – Diesel (2000)

Melhor disco de banda independente que já ouvi.

  • Lobão – A Vida É Doce (1998)

Trip-hop majestoso, cd que era vendido nas bancas, baratinho.

  • Los Hermanos – Bloco do Eu Sozinho (2001)

Brilhante.

  • Paralamas do Sucesso – Selvagem? (1986)

Ganhei aos 8 anos de idade, embalou minha infância. Mas até hoje escuto.

  • Pato Fu - Isopor (1999)

O melhor e mais bem produzido cd da banda. Pop bacana, pitadas de rock inglês e sem besteirinhas engraçadinhas. (nota atual: atualmente, acho que foi desbancado pelo fabuloso “Toda Cura para Todo Mal” (2005).

  • Skank – Maquinarama (2000)

Ápice criativo da banda.

  • Titãs – Go Back (1986)

Outra grande recordação da infância, que escuto até hoje.

De 2003 pra cá, alguns discos de referência pra mim, além dos já citados nas notas acima:

  • Dead Fish – Zero e Um (2004)

Referência em se fazer hardcore no Brasil.

  • Violins – Grandes Infiéis (2004)

Referência em se fazer um rock ácido, sarcástico e principalmente, inteligente.

  • Foo Fighters – Echoes, Silence, Patience & Grace (2007)

A banda parou/acabou, talvez porque Dave Grohl percebeu que não dava pra fazer algo ainda melhor.

  • Transmissor – Sociedade do Crivo Mútuo (2008)

Tremenda felicidade nas composições, letras, timbres e até nos clichês.

  • Marcelo Camelo – Sou/Nós (2008)

Fugiu do óbvio e cometeu um trabalho absurdo de bom.

  • Ben Kweller – Sha Sha (2002)

O moleque é foda. Só isso.

R.E.M., Rock in Rio, 2001

Texto sobre o show do R.E.M. no Rock in Rio III, em 2001. Texto publicado em Outubro/2003, mas indisponível na internet até então.

Este ERA o melhor show da minha vida, até o Pearl Jam colocar a Apoteose no chão, em 2005, mas este é outro texto, hehe.

“O MELHOR SHOW DA MINHA VIDA

13 de Janeiro de 2001, Rio de Janeiro. Calor de amolecer asfalto (de fato). O poderoso sol, que castigou todos, definhava no horizonte.

Pisei no gramado da Cidade do Rock ouvindo Cássia Eller cantar “Come Together”. É, não começamos mal. Fiquei sentado no gramado (quente, como quase tudo, menos os sanduiches e bebidas, gelados e caríssimos). Admirava a beleza de Fernanda Abreu e sua musiquinha tola. (Nota atual: nossa, como eu era revoltado naquela época hahahah, hoje eu tolero a música dela tranquilamente, ou quase hehe). Até o Evandro Mesquita apareceu para cantar a bobinha “Você Não Soube Me Amar” (Nota atual: é bobinha sim, mas fez história no pop rock nacional dos anos 80, fez sentido tocarem). Em seguida o Barão Vermelho fez um bom show de despedida. (Nota atual: foi a primeira despedida deles né?).

O Beck fez o show errado, no local errado, pro público errado. Gosto do cara, mas ele era (ainda é) um ilustre desconhecido por aqui. Uma meia dúzia se agitou em “Loser” e “Where It’s At”, seria melhor se ele tocasse no Free Jazz. (Nota atual: mas o show dele foi muito bom hehe).

Fui lá pra frente, ficar espremido e conferir de perto o Foo Fighters, que gosto bastante (Nota atual: top 5 ok?). Show empolgante, sensacional. Tecnicamente, foi fraco. (Nota atual: discordo hahaha, só na parte do vocal do Dave Grohl). Dave Grohl estava visivelmente emocionado, assustado com tanta gente. Não conseguia cantar direito, mas sobrava carisma. E a galera acompanhou, desde o início arrasador (“Breakout”) até terminar na maravilhosa “Everlong”.

Enfim: R.E.M. no palco iluminado, lindo. Michael Stipe começa a cantar “Finest Worksong”. Peter Buck toca o riff característico com sua Rickembacker. Mike Mills, com uma roupa azul ridícula, executa o melhor backing vocal do rock pós-beatle (Nota atual: tem o Frusciante hein…). Fiquei louco, esqueci o calor insuportável e o cansaço.

Stipe diz “Hello, Brasil” humildemente apresenta a banda (como sempre faz) e em seguida com uma Les Paul, Buck começa “What’s the Frequency, Kenneth?”. Só parei de pular no solo de guitarra, lá pela metade da música.

Aplausos nervosos, começa “Fall on Me”. Olho pro lado e vejo muitos hipnotizados pelo momento, por presenciar uma música tão linda. Nem sabia pra quem agradecer, estava delirando.

Vem “The Wake-Up Bomb” do meu disco predileto (“New Adventures in Hi-Fi”). Ganhou um órgão maravilhoso, ficou ainda mais bonita. Já estava no lucro, pagar 35 reais foi uma pechincha. (Nota atual: 35 reais???? PQP!!!).

Começa “Daysleeper”, que sequência! Atordoado, berrava as letras, queria (em vão) participar do show.

Stipe pergunta se estávamos felizes, eu estava além. Já rouco, apenas acompanhei “The Great Bey0nd”.

O R.E.M. se dá ao luxo de tocar uma música até então inédita, a belíssima “She Just Wants to Be” do “apenas” bom “Reveal”, que ainda era inédito. Fiquei quieto e atento. Logo, grato.

O público se agita com “Stand”, as luzes se alternam. Comecei a acreditar que realmente estava em um show do R.E.M., era bom demais pra ser real.

A emoção tomou conta de todos em “So. Central Rain”, uma das mais antigas e belas canções do grupo. Estava boquiaberto.

Meu sorriso adentrava nas orelhas com “At My Most Beautiful” (“A found a way to make you smile”), uma das músicas mais bonitas que já ouvi. Me deu vontade de chorar de alegria, mas estava tão “seco”, o calor me fez transpirar tanto que acho que não sobrou nada para as lágrimas.

“The Lifting” era outra ainda inédita, mas tentei me recuperar pra próxima.

Frenesi geral: “The One I Love”. Me beliscava, vivia um caos interno.

Comecei a fraquejar em “Find the River”. Desisti de cantá-la, exausto. Ouço a explosão de “Losing My Religion”. Parecia gol em final de Copa. Todos os 200 mil presentes cantavam. Pulei sem querer pular, ou pulava ou era pisado. Os garis começaram a dançar com suas vassouras, Mike Mills balançava a cabeça e soria, não acreditava no que via, Peter Buck idem.

Todos gritavam “R.E.M.” e veio a ducha fria, “Walk Unafraid”, no público em geral, eu enlouqueci, uma de minhas prediletas, ficou mais pesada e agitada ao vivo.

“Man on the Moon” foi outro grande momento, já estava vencido pela alegria e perplexo, o que viesse era lucro.

Stipe se ajoelha pro público e sorri. Era injusto, nós é que devíamos fazer isso…

A banda volta pro bis com o golpe de misericórdia. Não há adjetivos para descrever como foi “Everybody Hurts”. No meio da música, por instinto, gratidão, todos já a aplaudiam. Muitos choravam igual criança. Eu podia morrer ali mesmo.

A banda bebe caipirinha e agita com “Pop Song 89″, o público já era refém.

Gran finale: “It’s the End of the World as We Know It”, teve até mosh no público! Stipe cantou lá embaixo, com o público a mão.

Ainda me sinto na dívida com o R.E.M.. Esse show foi para mim como um rápido movimento dos olhos durante um sonho que jamais queria que acabasse.

Red Hot Chili Peppers, 2003

Texto originalmente postado em Março de 2004:

“RED HOT AO VIVO, FRUSCIANTE ALÉM

No final de 2003, o Red Hot Chili Peppers lançou um dvd ao vivo, chamado “Live at Slane Castle”. Você não deveria vê-lo porque:

  • A banda ao vivo é uma incógnita, alternando shows fabulosos (Pacaembu, São Paulo, 2002) com apresentações grotescas (Rock in Rio, 2001);
  • John Frusciante é o guitarrista, ou melhor, talvez o ser (humano?) mais imprevisível que exista;
  • 15 das 18 canções presentes no dvd estão nos discos da fase easy listening da banda, a saber “Californication” e “By the Way” (Nota atual: ter resumido duas pérolas pop em easy listening foi forçar a barra);
  • Consequentemente, não há nenhuma canção do eternamente esquecido “One Hot Minute” (1995) e de nenhum disco dos anos 80 (como o clássico “Mother’s Milk”, de 1989);
  • O preço de qualquer dvd (como dos cds) desestimula qualquer um a comprar qualquer coisa (Nota atual: hoje nada mudou haha).

Parei aqui. Mesmo assim, assistam o dvd, nem precisaria escrever mais, pois:

  • 48 reais (preço que paguei) não paga nem o bônus do dvd, que são simplórios;
  • O local, onde o show é realizado é simplesmente espetacular, com mais de 100 mil insanos (irlandeses, alegria, cerveja etc e tal) que cantam alto até os riffs de um guitarrista cabeludo com dois braços “de plástico”. (Nota atual: exagerei. Não sobre o Frusciante, haha, mas sobre o público…);
  • A iluminação, o telão, são magníficos. Há uma câmera com um efeito de congelar a imagem idêntico ao do filme Matrix, de deixar boquiaberto;
  • Elogiar a “cozinha” do Red Hot é um tremendo pleonasmo. Chad Smith é um dos melhores, discretos e eficientes bateristas do rock. Flea é o baixista que toda banda gostaria de ter, é um gênio e é literalmente pirado, o que é bem bacana;
  • Anthony Kiedis canta de forma surpreendente. Não foi tanta surpresa, pois fui até São Paulo acompanhar o show da mesma tour e tive a mesma impressão;
  • John Frusciante é foda. Incrivelmente inspirado, toca com uma sensibilidade única, cada nota parece que seu braço é a própria Telecaster. Não são suas expressões, nem apenas sua guitarra. Existem ótimos guitarristas e ótimas guitarras. Mas naquele diam essa combinação resultou em algo extraordinário. Riffs maravilhosos, improvisos e um arrepiante backing vocal;

A banda confirma que quando estão conscientes (sãos), talvez nenhuma banda possua uma presença de palco, consistência e vitalidade como eles.

Tracklist: “By the Way”, “Scar Tissue”, “Around the World”, “Universally Speaking”, “Parallel Universe”, “The Zephyr Song”, “Throw Away Your Television”, “Havana Affair” (Ramones), “Otherside”, “Purple Stain”, “Don’t Forget Me”, “Right on Time”, “Can’t Stop”, “Venice Queen”, “Give It Away”, “Californication”, “Under the Bridge” e “Power of Equality”.

Vampire Weekend, 2008

Texto inédito, de 1000 caracteres, sobre o primeiro cd dos Paralam.. ops, Vampire Weekend, brincadeira heheh:

“Crítico musical deve conhecer muita coisa, mas nem sempre se conhece o bastante. Mas tudo fica mais fácil quando a banda, sim, a própria conhece muita coisa e facilita tudo, como é o caso do Vampire Weekend.

Surgiu em 2006 em Nova York, lançou dois anos depois um álbum com o mesmo nome. Som agradabilíssimo, passeando pelo pós-punk, com um pé no Talking Heads (e principalmente David Byrne solo) e música africana. “Cape Cod Kwassa Kwassa” é Paul Simon. “A-Punk” toca em qualquer pista do mundo. “Oxford Comma” encanta pela malícia. O cd é cheio de detalhes, possui uma riqueza que põe qualquer Arcade Fire no chinelo, ou você já escutou reggae com arranjos orquestrados? “The Kids Don’t Stand a Chance” é sutil e linda. Só precisam se proteger dos clichês perigosos da “world music” O grupo é pretensioso, é rebuscado, mas até o mais chato se renderá a eles.

Uns chamam de art rock, outros indie rock, mas podem chamar de “música boa”. Que promete continuação em 2010, com um novo cd.”

Godzilla e as profecias do rock, 2009

Texto publicado em 2009 sobre a trilha sonora do filme “Godzilla”, de 1998:

GODZILLA E SUAS PROFECIAS

Recentemente, passeando e me perdendo pelos meus cds, achei um de capa verde, bem empoeirado. Era “Godzilla” (the album) que submergia pela poeira depois de anos esquecido nas profundezas do meu quarto.

Trilha sonora do filme, lançado em 1998, com direção de Roland Emmerich e protagonizado por Matthew Broderick. Vou deixar os comentários do filme para os experts do site, mas até onde me recordo, o filme deixa bastante a desejar. Já a discografia, é outro papo.

Para alavancar o filme no lançamento, reuniram uma seleção respeitável, alguns ainda não estavam em plena forma, outros estavam em fase de transição, mas todos contribuíram para fazer da trilha sonora um registro bem mais digno do que o que se viu nos cinemas.

Como primeiro single, a faixa de abertura do cd, “Heroes”, de David Bowie / Brian Eno, pelos Wallflowers. A banda, liderada por Jakob Dylan (sim, o filho “do homem”), estava no auge da carreira, recentemente lançaram o excelente “Bringing Down the Horse”, que vendeu milhões de cópias mundo afora (muito mais que qualquer álbum do pai) e trazia músicas sensacionais, como “One Headlight”, “6th Avenue Heartache”, “The Difference”, “Invisible City” e muitas outras. A cover é ok, difícil superar a versão original, mas pelo menos foi uma versão digna, fazendo muito sucesso por aqui também.

Segunda faixa, a polêmica “Come With Me”, de Puff Daddy (atual P. Diddy) e Jimmy Page. A base é “Kashmir” do Led Zeppelin (inclusive com Tom Morello, do Rage Against the Machine tocando baixo) e P. Daddy (whatever) fez uma versão, com outra letra. Enfim, como todo roqueiro adolescente, fiquei com raiva daquilo e tal. Mas foi uma cartada certeira, Puff Daddy estava em alta na época e surrupiar bases de rock era com ele mesmo (inesquecível o que fez com “Every Breath You Take” do Police que virou “I’ll Be Missing You)”.

Jamiroquai inova com “Deeper Undergrund”, ótima música, mas que foge totalmente do que a banda fazia até então. Depois de um início maravilhoso, flertando com acid jazz e funk, eles estouraram com o indispensável “Travelling Without Moving”, até hoje, o melhor disco dos caras, lançado dois anos antes, com “Alright”, “Virtual Insanity”, “Cosmic Girl” e minha favorita, “High Times”. “Deeper Undergound” mostrou o novo caminho que a banda tomou (inclusive, renovada, trocando vários integrantes). No disco posterior, o ótimo “Synkronized” (1999), “Deeper Undergound” aparece escondida, como bonus track.

Em seguida, Rage Against the Machine aparece com a arrasadora e inédita “No Shelter”. O Rage também estava no auge, depois da estreia, sucesso de crítica (“Killing in the Name”, “Freedom” etc) e do segundo cd, “Evil Empire”, sucesso de público (“Bulls on Parade” e nem preciso citar o resto).

Em seguida, “Air”, o delicioso Ben Folds Five, com seu jazz-pop-querendo-ser-rock.

O Days of the New também marca presença, com seu grunge acústico fino e a faixa “Running Knees”.

Não conheço bem o post-grunge do Fuel, mas não duvidarei se “Walk the Sky”, presente na trilha sonora, seja uma das melhores músicas da banda, pois é absurdamente boa, enérgica.

Foo Fighters apresenta a inédita “A320”, que segue com a barulheira do magnifico “The Colour and the Shape” (1997), mas já apresenta arranjos e acentos (e acertos) pop do posterior, o obrigatório “There is Nothing Left to Lose” (1999). Confira, imperdível.

O Green Day recicla “Brain Stew” (do recente disco, “Geek Stinck Breath”, o mais pesado e injustiçado da banda), com uns arranjos de orquestra adicionais e grunhidos desnecessários do “Godzilla”. Mas a música resiste, é boa.

O Silverchair aparece na sua fase de transição. Depois do primeiro cd grunge (“Frogstomp”), do segundo grunge/pesado (“Freak Show”) e antes dos acessos pop e orquestrados que levaram ao enorme sucesso de “Neon’s Ballrom” e “Diorama” (pelo menos aqui) a banda aparece com a faixa “Untitled”, inédita. Começa calma e bela e descamba pra barulheira irresistível, seria uma mistura de “Freak” com “Luv Your Life”, se isso fosse possível.

Adiante, dance com “Undercover” de Joey DeLuxe e no final duas faixas de David Arnold, que compôs a trilha (de fato) pro filme. Até então, Arnold compôs trilhas de outros sucessos (alguns do agente 007), como “Independence Day”, “Tomorrow Neves Dies”, “The World Is Not Enough”, “Die Another Day”, “Casino Royale” e “Quantum of Solace”. O cd duplo, com as 40 faixas de David, foi engavetado, mediante o fracasso do filme nas bilheterias. E inexplicavelmente, lançado em 2007.

Mas a trilha é de ótima qualidade e retrata uma fase de transição do rock, principalmente estadunidense, e já apontou os caminhos que o próprio tomou na virada do milênio. A trilha teve um papel profético. Se bem que o filme também, pois depois do fracasso de crítica e público, nem tentaram fazer outro.

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